Uma webserie de documentários curtos sobre tecnologias que se baseiam na coleta de dados sobre nossos corpos

Além dos nossos aparelhos eletrônicos preferidos, nossos corpos também estão se tornando fontes de dados. Do reconhecimento facial à coleta de informações de DNA, “smart”, “mais seguro”, “mais saúdavel” são narrativas comuns por trás dessas tecnologias digitais e biotecnologias que estão levando práticas já preocupantes de perfilamento a um outro nível. O contexto do COVID-19 também está acelerando essa tendência.

Você sabia que se um primo ou prima distante fizerem um teste de ancestralidade usando DNA, a partir desse material genético, a polícia pode deduzir o seu DNA, mesmo que você nunca tenha feito um teste desses? E que essa informação pode ser usada para te identificar, mesmo que erroneamente, com a cena de um crime? E se planos de saúde tiverem acesso a esses dados para presumir que você tem tendência a desenvolver certas doenças e te cobrarem mais caro para um seguro? A coleta de informações genéticas torna ainda mais evidente que a privacidade é uma questão coletiva.

Mas nossos corpos estão se transformando em base de dados em contextos de vigilância, governos de extrema direita, falta de regulação apropriada, além de serem analisados por algoritmos que reproduzem desigualdades de gênero, em todas as suas interseccionalidades de raça, sexualidade, classe, etnia, etc. Tudo isso está acontecendo enquanto crescem casos de práticas abusivas no compartilhamento e monetização de dados sensíveis. Pasmem, mas já temos empresas vendendo testes de DNA até para o que chamam de testes de infidelidade! o.0

Se já era crítico que o consentimento fosse dado às plataformas digitais por meio de um simples clique em um botão de “ACEITO”, quando os dados são coletados de nossos corpos ao transitarem pelos territórios, o que realmente significa consentir? E se os donos dos dados forem imigrantes que cruzam fronteiras? Ou pessoas presas já no final do cumprimento de pena? Ou pacientes do COVID-19? Quem está submetido a relações desiguais de poder, não tem como consentir.

Com essas e muitas outras questões em mente, a Coding Rights lança hoje uma webserie de curtas com conversas esclarecedoras que têm o objetivo de fundamentar e ampliar os debates sobre a implementação de biotecnologias e tecnologias digitais que funcionam baseadas em dados sobre nossos corpos.

O primeiro vídeo é sobre os desafios de direitos humanos enfrentados pela crescente coleta de informações de DNA por empresas e instituições de aplicação da lei nos Estados Unidos, Brasil e Reino Unido, mas também traz análises de alguns estudos de caso de outras partes do mundo.

O vídeo traz trechos do painel “A tale on DNA data collection”, que organizamos na Rightscon 2020. Na ocasião, Joana Varon e Mariana Tamari, da equipe da Coding Rights, se juntaram a Jennifer Lynch, Diretora de Litígios sobre Vigilância da Electronic Frontier Foundation (EFF) e Helen Wallace, Diretora Executiva da GeneWatch, em um bate-papo virtual sobre a coleta de dados de DNA.

Uma breve introdução das participantes convidadas:

Jennifer Lynch, Diretora de Litígios sobre Vigilância da Electronic Frontier Foundation

Lidera o trabalho jurídico da EFF desafiando o abuso governamental de tecnologias de busca e apreensão. Fundou o Projeto Street Level Surveillance da EFF, que informa defensores públicos, advogados e juízes sobre novas ferramentas policiais. Escreve sobre DNA, reconhecimento facial e tecnologias de rastreamento do governo, incluindo white papers sobre a coleta de dados biométricos em comunidades de imigrantes e uso de uso de reconhecimento facial pela polícia.

Helen Wallace é diretora executiva da GeneWatch, Reino Unido

Especialista em ética, riscos e implicações sociais da genética humana. Ela publicou extensivamente sobre temas associados à ciência e tecnologias genéticas; forneceu provas periciais a várias comissões parlamentares e ao Tribunal Europeu de Direitos Humanos. Helen trabalhou como cientista ambiental na universidade, na indústria e como Cientista Sênior no Greenpeace no Reino Unido, onde foi responsável pelo trabalho científico e político em uma série de questões. É formada em Física pela Bristol University e é PhD em Matemática Aplicada pela Exeter University.